
Sinopse: Adelaide e Gabe levam a família para passar um fim de semana na praia e descansar. Eles começam a aproveitar o ensolarado local, mas quando a noite cai e a chegada de um grupo misterioso muda todos os seus planos, a família se torna refém de seres com aparências iguais às suas.
Jordan Peele volta aos cinemas com mais um filme escrito e dirigido por ele mesmo. Depois do seu antecessor (e consagrado com um Oscar de Melhor Roteiro Original... uma decisão que eu achei particularmente exagerada), Corra!, ele agora mergulha em águas onde o horror tenta mais profundo e o suspense tenta ser mais asfixiante... Pois eh, ele apenas tenta. Assim como em seu filme anterior, ele oferece ao público apenas a promessa de um ótimo filme e acaba decepcionando mais uma vez.

Há toda uma premissa bem interessante por trás do plot central do roteiro. É fácil perceber que a trama quer entregar algo a mais, como se quisesse mostrar ao espectador uma maneira nova de contar uma história. Isso é reforçado - principalmente - pela forma como a edição de cenas é trabalhada, sendo responsável por conseguir criar momentos tensos que intercalam com sequências rápidas que vão se cortando e mexendo com a mente de quem está assistindo.
Aliada a uma boa fotografia (que por sinal, trás momentos estrategicamente ótimos na construção do suspense) e também a um trabalho de produção esteticamente caprichado (principalmente na ambientação dos locais, onde alguns deles são mórbidos e respiram um ar meio claustrofóbico), toda a parte visual do filme merece comentários positivos porque ela conta uma boa parte da história sem ter que utilizar nenhuma linguagem verbal.
Sendo assim, cria-se uma atmosfera pesada e em alguns momentos, agonizante no que diz respeito ao grande segredo que o filme esconde. Porém, as (altas) expectativas acerca da resolução do mistério criado com tanto esforço ao longo da projeção (porque o roteiro realmente investe pesado nisso, plantando várias dúvidas à medida em que o filme se desenvolve) são miseravelmente frustradas.

Em sua maior parte do tempo o filme é construído de maneira decepcionante, investindo em uma amarga mistura entre suspense e situações cômicas que definitivamente não funciona (esquecendo, mais uma vez, do horror... exatamente como foi feito em Corra!) que está recheada de acontecimentos que terminam sem maiores explicações (e alguns sem a menor explicação mesmo... como se estivesse na tela apenas para confundir a mente do espectador a troco de nada).
Além disso, o roteiro tem alguns furos (algo que eu realmente não consegui entender se foi ou não proposital... mas que me incomodou bastante pela falta de tato na condução e execução dos mesmos) que além de tornar a trama relativamente previsível (não há um grande impacto no momento da revelação), entregam uma explicação preguiçosa no que diz respeito as cópias aterrorizantes que, aparentemente, são os grandes vilões da história.

Com exceção da excelente Lupita Nyong'o (que tem as melhores cenas e entrega uma de suas melhores atuações... totalmente imersiva em uma personagem desafiadora que protagoniza momentos extremamente tensos), ninguém desponta no elenco como o trailer sugere (são apenas risivelmente corretos em seus respectivos papeis). Particularmente, eu fiquei mais decepcionado com a participação (não com a atuação!) da ótima Elisabeth Moss, que acabou sendo um coringa mal utilizado pelo roteiro.
Os personagens são aparentemente muito comuns, mas a medida em que a projeção do filme avança, eles vão apresentando suas diferentes facetas. Algumas delas são convincentes e conversa muito bem entre si, outras beiram uma caricatura sem graça e que não combina com clima do filme... Causando assim, uma dispersão desnecessária e que não agrega nada de bom para à trama (apesar das boas intenções).

Peele não é um diretor ruim (muito pelo contrário, é muito esforçado), ele parece estar no caminho para tornar-se um bom diretor algum dia... Mas esse dia não é hoje, ainda. O que mais incomoda aqui, é o fato dele desprender tanto esforço em explicar e querer justificar a todo custo - de maneira extensiva - uma narrativa cheia de momentos confusos e mal explicados (algo que ele faz de forma incessante, e até meio cansativa, no terceiro ato).
Sinceramente, acredito que se ele tivesse investido em melhores argumentos - e retirado o excesso de piadas fora de hora - para fortalecer a condução da narrativa (conferindo-lhe mais embasamento e consequentemente, atribuindo-lhe mais credibilidade... apesar da surrealidade da história de maneira geral) e deixado o grande mistério como uma metáfora de sentido aberto (ou seja, "cada espectador que se responsabilize pelo própria compreensão"), o filme se tornaria uma experiência mais satisfatória.

Nós não é um filme ruim (porque abre um precedente para um debate válido que por ser spoiler, eu não posso comentar aqui por envolver o grande mistério da trama), mas como eu fui assisti-lo com altas expectativas (culpa do trailer que é melhor do que o filme!), eu confesso que esperava ter assistido a algo mais inovador e com menos toques de surrealismo insano que aparentemente só fez barulho e não entregou uma festa completa, da maneira que deveria ser.